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Marsiglia: O ‘império da verdade’ é arma de regimes totalitários

Jurista publicou artigo sobre a dicotomia entre redes sociais e liberdade de expressão

Zuckerberg melhora o debate sobre liberdade de expressão nas redes é o título do artigo de André Marsiglia na Revista Exame, publicado nesta quinta-feira (23). Em seu olhar crônico sobre a virada de leme circunstancial do CEO da Meta, o jurista adverte que não existe verdade como elemento uníssono e os que buscam constituir o “império da verdade” apenas se sobrepõem aos “ingênuos” que se distraem procurando uma convergência singular entre fatos, versões e narrativas.

Marsiglia acredita que “passado o momento inicial de certa histeria sobre as alterações na moderação de conteúdos da Meta, haverá um provável aprofundamento do debate sobre liberdade de expressão nas redes sociais”.

– Não é possível existir uma só verdade, o conceito de verdade é sempre provisório e múltiplo e, quando permitimos que alguém escolha uma melhor versão dela por nós, nos submetemos. O império da verdade é sempre o governo daqueles que, pela força, impõem sua visão de mundo a ingênuos que acreditam em uma verdade única. Algo perigoso, sempre próspero em regimes totalitários – disse o especialista em liberdade de expressão.

Para o analista, Zuckerberg “sem perceber, nos oferece uma porta de saída ao mudar suas políticas internas da noite para o dia, alinhando-se ao presidente eleito Donald Trump”. E faz uma crítica ao caráter volúvel com que essa aderência ao novo governo norte-americano se deu.

– É bastante óbvio que tenha se amoldado também de igual modo ao presidente anterior. Dessa forma, se a nova moderação da Meta gera desconfiança, não menos temerária é a crença de que a moderação anterior era ideal, pois provavelmente estava sendo guiada por interesses, apenas com a chave política invertida.

Ao constatar que as plataformas digitais, definitivamente, não são arautos da veracidade das ocorrências ou o farol moral da humanidade – nem tem essa inclinação performática como proposta -, André Marsiglia nos convida à maturação intelectual e ao alinhamento das expectativas na seara social virtual.

– Se formos adultos o suficiente, talvez possamos, quem sabe, aceitar todas as verdades de uma só vez, algo que só é possível em uma democracia, em que a soma de visões nos capacita a construir versões melhores da verdade e de nós mesmos, sem a tutela paternalista do Estado, de empresas ou de checadores profissionais – concluiu.